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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dos Outros : Os Velhos - Para Ler E Reflectir.


A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa anunciou que vai pagar mais de 622 euros (onde estão incluídos 70 por cento das suas reforma) a famílias que “adoptem” um velho institucionalizado. Desculpem usar a palavra velho, mas idoso é coisa impessoal de burocrata. Um velho é um velho e a vergonha da velhice é uma das coisas mais idiotas dos nossos tempos. Que tem razões fundas, mas a isso já lá vou.

A ideia da Santa Casa até pode ser generosa e interessante. Imagino que até seja melhor solução do que os lares ou do que a solidão. Mas fico-me por algumas dúvidas genéricas.

Os velhos são chatos. São lentos e rabugentos, cheios de manias ganhas ao longo da vida. Cheios de maleitas e dependências. Ao contrário das crianças, não evoluem para a autonomia. Na verdade, os velhos são tão chatos como todos nós. Apenas já não têm forças, paciência e razões para o disfarçar. Nada têm a perder que não esteja próximo de ser perdido. Mas os velhos sabem da vida coisas extraordinárias. Transportam as nossas memórias. Ou seja, os velhos são tão bons e tão maus como nós todos, mas mais frágeis, com mais vícios e com mais experiência.

Gostamos da companhia dos velhos quando não somos deste tempo, que despreza a memória e a experiência; ou quando aquele velho de que gostamos é um pouco de nós. Porque sendo nosso pai, nossa mãe, nosso avô, nossa avó, nosso mestre, nosso qualquer coisa, encontramos nele alguma coisa daquilo que somos.

Uma criança adopta-se porque ela é uma possibilidade de futuro que nos inclui: será nossa filha porque com ela construiremos esse parentesco. Isso não é possível com um velho. Porque o que alimenta a relação com o filho adoptado é o presente e o futuro. Com um velho é o presente e o passado. E, se adoptarmos um velho, o passado em comum não estará lá. E isso faz toda a diferença. Um velho não é uma criança grande. É um adulto e um adulto não se adopta. 622 euros por mês garantem a possibilidade de alimentar um velho. Mas não garantem mais nada. E confesso que me assusta esta ideia de alugar o afecto.

Mas o que me interessa é tentar perceber como chegámos até aqui. Como é possível que os nossos velhos, os nossos pais e as nossas mães, os nossos avôs e as nossas avós, sejam despejados em lares e agora até possam ter de ser adoptados como se a velhice fosse uma infância sem passado?

O abandono dos velhos resulta de coisas boas e de coisas más.

A longevidade aumentou e as famílias, que antes ficavam com os seus velhos durante um período curto das suas vidas, não lhes podem dar a mesma atenção quando o seu tempo de vida, frágil e dependente, é muito maior.

A entrada das mulheres no mercado de trabalho mudou a natureza das famílias. As instituições – as creches, as escolas e os lares – ocupam-se das pessoas que antes estavam a cargo das mães e das filhas.

A produtividade é tudo o que conta. A sociedade valoriza os que ainda não produzem mas estão a ser preparados para o fazer, mas não aqueles de quem já nada se espera.

O tempo acelerou e é a capacidade de aprender depressa que torna as pessoas valiosas. A memória e a experiência parecem não valer um chavo.

Acontece que os velhos já são, nas sociedade mais ricas, uma parte muito significativa da população. E se queremos viver com alguma dignidade – nós próprios seremos velhos um dia – temos de mudar algumas coisas nas nossas vidas.

Dando mais tempo a quem trabalha para tratar dos seus. É por isso que não me deixo de espantar com aqueles que dizendo defender “os valores da família” são ao mesmo tempo defensores de regimes laborais agressivos e precários, onde não sobra tempo para mais nada que não seja trabalhar. E garantindo que os velhos que têm alguma autonomia se mantêm activos em funções úteis. Uma delas já é aproveitada por muitas famílias: ajudarem a educar os netos.

Não podemos continuar a enfiar os nossos velhos em depósitos, para que morram devagar longe dos nossos olhos. Mas a alternativa não me parece que sejam famílias de aluguer, que representariam uma enorme violência para muitos dos que já tiveram uma vida cheia de afectos. A simples possibilidade de pagar 622 euros mensais para estranhos adoptarem os nossos velhos devia chegar para percebermos que somos, neste momento, uma civilização doente.

Daniel Oliveira
publicado aqui
mas tirado daqui o artigo e a imagem.

Comentário:
Como boa africana não podia deixar de assinar por baixo.

2 comentários:

  1. Excelente reflexão! Subscrevo e acrescento o muito... muito doente.
    Beijos

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  2. amplio muito, muito, muito doente!
    beijo

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