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domingo, 15 de agosto de 2010

Dos Outros : Poesia de Ruy Duarte de Carvalho


A terra que te ofereço


Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,

estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar

no chão de minha oferta,

coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

Trago
para ti
em cada mão
aberta,

os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:

o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar
de plasma
quente.

Ruy Duarte de Carvalho - [1941-2010]
- uma espécie de habilidade autobiográfica.

sábado, 31 de julho de 2010

IN MEMORIAM : António Feio


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

domingo, 16 de maio de 2010

Zebra-Ovelha Negra

Fotografia de Anabela Magalhães
©
.
querem-me ovelha de rebanho
branca de lã e mansa no balir...
.
obediente ao pastor.
.
mas eu nasci-me
em dia de vendaval
e
escolhi-me negra.
.
e
se animal tiver que ser
prefiro a zebra.
.
Em@
.
Pintura de Em@
(com textura)
©

Nota:
Muitos thankiús , Anabela, pela tua fotografia. :D

domingo, 25 de abril de 2010

Abril a Duas Mãos

.
.
Abril a duas mãos
.
Abril, que seja outro.
Um que venha e valha.
E pode ser de madrugada.
.
...
ou a outra hora qualquer.
desde que venha e valha
um Abril, que já tarda.
.
Em@