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domingo, 15 de agosto de 2010

Dos Outros : Poesia de Ruy Duarte de Carvalho


A terra que te ofereço


Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,

estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar

no chão de minha oferta,

coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

Trago
para ti
em cada mão
aberta,

os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:

o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar
de plasma
quente.

Ruy Duarte de Carvalho - [1941-2010]
- uma espécie de habilidade autobiográfica.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

IN MEMORIAM...De Longe________________________

Ruy Duarte de Carvalho em 2007
Nuno Ferreira Santos
Em sua casa, na Namíbia

Morreu o escritor Ruy Duarte de Carvalho

12.08.2010 - Joana Amaral Cardoso


Causas da morte do autor de "Lavra" ou "As Paisagens Propícias" estão ainda por conhecer.

O escritor, poeta, cineasta, artista plástico, ensaísta e antropólogo Ruy Duarte Carvalho morreu na sua casa na cidade de Swakopmund, na Namíbia, aos 69 anos.


Desde que se reformara, o escritor passou a residir em Swakopmund, a segunda maior cidade da Namíbia, e foi ali que hoje foi encontrado já sem vida. Não são ainda conhecidas as causas da sua morte, soube o PÚBLICO. De acordo com o filho do escritor, Ruy Duarte de Carvalho não dava notícias há alguns dias.

Nascido em Portugal, naturalizou-se angolano em 1975 por motivos que, como explica no catálogo do ciclo que o Centro Cultural de Belém lhe dedicou em 2008, se prendem com o sentimento, de que teve consciência aos 12 anos, depois de a sua família ter emigrado para Moçâmedes (Angola), de que tinha ali a sua "matriz geográfica". Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura.

A sua formação passou pela Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, pelo curso de realização de cinema e televisão em Londres (realizou filmes para a TV angolana e para o Instituto do Cinema de Angola) e pelo doutoramento pela École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris com uma tese dedicada aos pescadores da costa de Luanda, com o título "Ana a Manda" (1989). Filmou a noite da independência de Angola (10/11 de 1975), quando estava a rodar no município do Prenda, "a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a ser hasteada", como se lê no catálogo do ciclo do CCB.

Foi professor das universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo, além de ter sido professor convidado da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e realizou dos filmes "Nelisita: narrativas nyaneka" (1982) e "Moia: o recado das ilhas" (1989).

É autor de "Vou lá visitar pastores" (1999), da poesia de "Chão de Oferta" (1972) ou "A Decisão da Idade" (1976) - a sua poesia está reunida em "Lavra" (2005) e foi premiado pelo Correntes d'Escritas por "Desmedida". Assinou ainda os diferentes estilos de "Actas da Maianga" (2003), "Os Papéis do Inglês", "As Paisagens Propícias" (2005) e descrevia a sua obra como "meia-ficção-erudito-poéticoviajeira".


Comentário:
estou triste. aqui de longe, mais um que se vai.
ruy duarte de carvalho foi amigo do meu pai - ambos conviveram com os mukubais e partilharam vivências no karakulo/deserto do namibe - essa casa que eu gosto de chamar de primeira. :((( ´(

(notícia recebida por e-mail. obrigada Bita, beijo no <3.)