Bem-vindo(a) - Bienvenido(a) - Welcome - Willkommen - Benvenuto(a) - Bienvenu(e)

Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de junho de 2011

domingo, 4 de julho de 2010

Dos Outros: uma carta.... para lerem e reflectirem

" Carta para Josefa, minha avó "

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!".
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.

"Carta para Josefa, minha avó", publicada por Saramago, em 14 de Março de 1968, no jornal lisboeta "A Capital"

A velha senhora era analfabeta.

Nota:
1 Beijo para ti, Zé Guerra Santos, e muitos thankiús!
O Zé é do meu Kimbu, colega do Liceu Nacional Diogo Cão e perdido na Diáspora, desde 1975! Reencontrámo-nos no FB e revimo-nos no fim-de-semana passado, conheci a sua Mukaia (mulher) e matámos alguma "sódade" com outros manos...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Citação

.
"Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita".

(José Saramago, Memorial do Convento)

domingo, 20 de junho de 2010

As Palavra de José Saramago (16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010)

.
Porque precisamos de nos levantarmos do chão! Com urgência!
.
"Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e a competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral.
Tendo nascido para trabalhar, seria uma contradição abusarem do descanso. A melhor máquina é sempre a mais capaz de trabalho contínuo, lubrificada que baste para não emperrar, alimentada sem excesso, e se possível no limite económico da simples manutenção, mas sobretudo de substituição fácil, se avariada está, velha outra, os depósitos desta sucata chamam-se cemitérios, ou então senta-se a máquina nos portais, toda ela ferrujosa e gemente, a ver passar coisa nenhuma, olhando apenas as mãos tristíssimas, quem me viu e quem me vê. No geral do latifúndio, os homens e as mulheres têm seu tempo regateado de vida, espanta-se a gente de como alguns vão a velhos, e muito mais quando, passando, encontramos um que à vista é ancião e ouvimos dizer que tem quarenta anos, ou esta mulher murcha e com a face encorreada, ainda não fez trinta, afinal viver no campo não dá vida acrescentada, são invenções da cidade, é como aquele regradíssimo ditado, Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, tinha graça vê-los aqui com a mão no cabo da enxada e os olhos no horizonte à espera do sol ou derreados das cruzes ansiando por um anoitecer que nunca mais chega, o sol é um desgraçado, cheio de pressa de sair e com tão pouca de se apagar. Como os homens."


José Saramago in "Levantado do Chão"

As Palavras de José Saramago I


“Que atire a primeira pedra quem não tenha manchas de imigração
na sua árvore genealógica... assim como na fábula do lobo mau que
acusava o inocente cordeiro de escurecer a água do riacho de onde
ambos bebiam. Se tu não emigraste emigrou o teu pai, e se o teu
pai não necessitou de mudar de sítio foi porque o teu avô antes não
teve outro remédio se não ir, carregando a casa às costas, em busca
da comida que a sua própria terra lhe negava. Muitos portugueses (e
quantos espanhóis) morreram afogados no rio Bidasoa quando, pela
noite escura, tentavam alcançar a nado a outra margem, onde se dizia
começar o paraíso de França. Centenas de milhares de portugueses
(e quantos espanhóis) tiveram que se introduzir na culta e civilizada
Europa, para lá dos Pirenéus, em condições de trabalho infames e
salários indignos. Os que conseguiram suportar a violência de sempre
e as novas privações, os sobreviventes, desorientados no meio de uma
sociedade que os desprezava e humilhava, perdidos em idiomas que
não podiam entender, foram pouco a pouco construindo, com uma
renúncia e um sacrifício quase heróico, moeda a moeda, cêntimo a
cêntimo, a fortuna dos seus descendentes. Alguns desses homens,
algumas dessas mulheres, não perderam, e não quiseram perder, a
memória do tempo em que padeceram de todos os vexames do trabalho
mal remunerado e de todas as amarguras do isolamento social. Que
honestos agradecimentos lhe sejam dados por conservar o respeito
que deviam ao seu passado. Muitos outros, a maioria, cortaram as
pontes que os uniam àquelas horas sombrias, envergonharam-se de
terem sido ignorantes, pobres, e por vezes miseráveis, comportaram-se
como se a vida decente só tivesse verdadeiramente começado quando,
por fim e num felicíssimo dia, puderam comprar o seu próprio
automóvel. Esses serão os que estarão dispostos a tratar com idêntica
crueldade e idêntico desprezo os imigrantes que atravessam esse outro
Bidasoa, mais largo e mais fundo que é o Estreito de Gibraltar, onde os
afogados abundam e servem de pasto aos peixes, se as marés e o vento
não preferirem empurrá-los para a praia até que a guarda-civil apareça
e os leve. Aos sobreviventes dos novos naufrágios, aos que puseram
os pés em terra e não foram expulsos, espera-os o eterno calvário da
exploração, da intolerância, do racismo, do ódio à pele, da suspeita, do
envelhecimento moral. Aquele que antes foi explorado e que perdeu
a memória de o ter sido acabará explorando outro. Aquele que antes
foi explorado e finge ter-se esquecido refinará a sua própria capacidade
de desprezar. Aquele a quem ontem humilharam humilhará hoje com
mais rancor. E ei-los aqui, todos juntos, atirando pedras a quem chega
a esta margem do Bidasoa como se eles nunca tivessem emigrado, ou
os seus pais ou os seus avós, como se nunca tivessem sofrido de fome
e de desespero, angústia e de medo. Na verdade, há maneiras de ser
felizes que são simplesmente odiosas.”

José Saramago, prólogo do livro Moros en la Costa de Juan José Téllez

sábado, 19 de junho de 2010

José Luis Peixoto recorda José Saramago



O José Luís Peixoto é, também, uma das minhas paixões na literatura (tenho muitas, aviso já!)

R.I.P.

Fotografia de Em@
©
.
"Na vida tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes, nós vamos a tecer vimes, arames e ferros e também a recolher vontades, para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer, isso mesmo fizemos com o cérebro, se a ele fizemos a elas faremos"

José Saramago

(in, Saramago, Memorial do Convento,pg 137)