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terça-feira, 1 de junho de 2010

Hasteio A Bandeira


"Mais de dez mortos. Trinta feridos. Um barco cheio de ajuda humanitária a caminho de uma região fechada ao Mundo interceptado em águas internacionais. E eles não só tomam o partido do mais forte como querem-nos convencer de que este é o mais fraco. Esta direita não age em função de uma amizade ou afinidade cultural, como tanto gosta de apregoar. Os verdadeiros amigos apontam os defeitos, dizem as verdades, denunciam quando é caso disso. Esta direita age de acordo com algo muito mais primitivo: o preconceito anti-islâmico. Que esse preconceito sirva um Estado opressivo – Israel – surgido como resposta ao pior genocídio da História, não é apenas irónico; é, sobretudo, trágico. O povo judeu pode dispensar este tipo de amigos. "
Daqui

"Violando todas as normas internacionais – o que parece ser já uma rotina -, tropas israelitas assaltaram uma embarcação civil de outro país em águas internacionais. Essa embarcação, com mantimentos para ajuda humanitária, não se dirigia a território israelita, mas a um país independente que sofre de um bloqueio não reconhecido nem aceite por nenhuma organização internacional.

Ou seja, o grupo armado israelita interveio ilegalmente em território estrangeiro. Formalmente, nada distingue esta acção da pirataria na Somália. A não ser, claro, o facto de ser levada a cabo por um Estado, o que torna a operação ilegal ainda mais grave. No assalto foram assassinados cerca de dez civis.

A contra-informação israelita, sempre apoiada por diligentes defensores do indefensável, veio rápida, como de costume. Soubemos que, escândalo dos escândalos, houve resistência ao assalto em águas internacionais. Em sua defesa, as autoridades israelitas, responsáveis por uma grosseira violação de todas as leis internacionais, garantem que havia “fisgas, berlindes e varas de diversos tamanhos” a bordo. Israel informou que a frota era apoiada por ONG’s ligadas à Al Quaeda, que é basicamente a acusação feita a qualquer organização que não apoie cegamente tudo o que seja feito por todos os governos israelitas. Nada de novo, portanto.

É também um clássico: tudo o que Israel faça, desde bombardeamentos a hospitais a assassinatos selectivos em território estrangeiro, desde uso de armas químicas ilegais a anexação de território que não lhe pertence, é justificável. Não vale a pena, por isso, perder muito tempo a responder ao disparate.

Desta vez, Israel foi mais longe na sua cada vez mais ousada provocação à comunidade internacional. E o ataque foi feito a um país membro da NATO e com quem mantinha relações diplomáticas. Não nos devemos espantar com o arrojo. O estatuto de inimputabilidade de que Israel goza há décadas – e que não tem paralelo com o de mais nenhum Estado, incluindo o mais poderoso do Mundo – só o poderia levar até aqui. Como os cidadãos, se um Estado sente que tudo lhe é permitido apenas o céu ou o Inferno será o seu limite.

Como é natural, por todo o Mundo sucederam-se as reacções de condenação. Mas Portugal ficou-se pela preocupação e o lamento pelo ataque a um aliado seu. Trata-se de uma política de Estado: ser capacho de todos os regimes, sem qualquer excepção. De Caracas a Washington, de Pequim a Luanda, de Moscovo a Bruxelas, de Telavive a Rabat, o governo português mantém sempre a coerente posição de não ter posição sobre nada, esperando que a sua irrelevância seja premiada com umas migalhas. No caso da Europa, ficou quase sozinho, não acompanhando sequer a posição oficial da União.

Só que este acto de pirataria tem consequências diferentes de tudo o que sucedeu até agora. O alvo foi o país membro da NATO. E a pergunta que fica é esta: a aliança militar tem como única função apoiar a política externa de um dos seus Estados membros ou, quando outro é ilegalmente atacado, há consequências políticas? Era importante saber. Recordo: a Turquia tem o segundo maior exército da Aliança Atlântica e nela se encontram importantes bases militares. Se este ataque é politicamente indiferente para os seus supostos aliados, o que raio está aquele país a fazer na NATO? É esta a pergunta que muitos cidadãos turcos se estarão a fazer neste momento.

Daniel Oliveira

Texto publicado no Expresso Online.