domingo, 6 de fevereiro de 2011
In Memoriam ...
domingo, 15 de agosto de 2010
Dos Outros : Poesia de Ruy Duarte de Carvalho
A terra que te ofereço
Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.
Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.
Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar
de plasma
quente.
Ruy Duarte de Carvalho - [1941-2010]
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
IN MEMORIAM...De Longe________________________
Nuno Ferreira Santos
Morreu o escritor Ruy Duarte de Carvalho
Causas da morte do autor de "Lavra" ou "As Paisagens Propícias" estão ainda por conhecer.
O escritor, poeta, cineasta, artista plástico, ensaísta e antropólogo Ruy Duarte Carvalho morreu na sua casa na cidade de Swakopmund, na Namíbia, aos 69 anos.
Desde que se reformara, o escritor passou a residir em Swakopmund, a segunda maior cidade da Namíbia, e foi ali que hoje foi encontrado já sem vida. Não são ainda conhecidas as causas da sua morte, soube o PÚBLICO. De acordo com o filho do escritor, Ruy Duarte de Carvalho não dava notícias há alguns dias.
Nascido em Portugal, naturalizou-se angolano em 1975 por motivos que, como explica no catálogo do ciclo que o Centro Cultural de Belém lhe dedicou em 2008, se prendem com o sentimento, de que teve consciência aos 12 anos, depois de a sua família ter emigrado para Moçâmedes (Angola), de que tinha ali a sua "matriz geográfica". Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura.
A sua formação passou pela Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, pelo curso de realização de cinema e televisão em Londres (realizou filmes para a TV angolana e para o Instituto do Cinema de Angola) e pelo doutoramento pela École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris com uma tese dedicada aos pescadores da costa de Luanda, com o título "Ana a Manda" (1989). Filmou a noite da independência de Angola (10/11 de 1975), quando estava a rodar no município do Prenda, "a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a ser hasteada", como se lê no catálogo do ciclo do CCB.
Foi professor das universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo, além de ter sido professor convidado da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e realizou dos filmes "Nelisita: narrativas nyaneka" (1982) e "Moia: o recado das ilhas" (1989).
É autor de "Vou lá visitar pastores" (1999), da poesia de "Chão de Oferta" (1972) ou "A Decisão da Idade" (1976) - a sua poesia está reunida em "Lavra" (2005) e foi premiado pelo Correntes d'Escritas por "Desmedida". Assinou ainda os diferentes estilos de "Actas da Maianga" (2003), "Os Papéis do Inglês", "As Paisagens Propícias" (2005) e descrevia a sua obra como "meia-ficção-erudito-poéticoviajeira".
estou triste. aqui de longe, mais um que se vai.
ruy duarte de carvalho foi amigo do meu pai - ambos conviveram com os mukubais e partilharam vivências no karakulo/deserto do namibe - essa casa que eu gosto de chamar de primeira. :((( ´(
(notícia recebida por e-mail. obrigada Bita, beijo no <3.)
sábado, 31 de julho de 2010
IN MEMORIAM : António Feio

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
sexta-feira, 30 de julho de 2010
António Feio entrevistado por Daniel Oliveira 19/09/2009
Ficámos, ainda, mais pobres.
A não perder esta entrevista dividida em 3 vídeos.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Estamos Mais Pobres: In Memoriam De Matilde Rosa Araújo

Morreu, hoje, aos 89 anos, a professora e escritora Matilde Rosa Araújo, a Tila, uma referência da literatura infanto-juvenil, uma amiga e defensora dos direitos das crianças,cuja carreira foi longa e premiada.
Na sua obra literária focou sempre três tipos de infância: a dourada, a agredida e a infãncia como projecto.
Matilde Rosa Lopes Araújo nasceu em 2o de Junho de 1921 e licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade Clássica em 1945 e esteve sempre ligada à docência. Era pois, uma, das melhores, da nossa classe.
Estou triste e mais pobre.
Estamos todos mais pobres.
A melhor forma de a homenagear é continuando a ler e a divulgar os seus livros.
O corpo de Matilde Rosa Araújo está em câmara ardente na SPA e vai a enterrar esta quarta-feira.
Bibliografia de Matilde Rosa Araújo
"A Garrana", é uma novela sobre a eutanásia, editada em 1943, dois anos antes de concluir a licenciatura. Com esta obra, Matilde Rosa Araújo venceu o concurso "Procura-se um Novelista" do jornal "O Século".
Livros infantis:
"O palhaço verde",
"História de um rapaz",
"O cantar da Tila",
"O sol e o menino dos pés frios",
"Balada das vinte meninas",
"O reino das sete pontas",
"História de uma flor",
"O gato dourado",
"As botas do meu pai",
"As fadas verdes",
"Segredos e brincadeiras",
"A saquinha da flor"
e
"Lucilina e Antenor".
"O inédito "Florinda e o Pai Natal" será editado a título póstumo, em Outubro, pela Calendário, de acordo com fonte da editora. A obra conta com ilustrações de Maria Keil, com quem colaborava. Gémeo Luís e João Fazenda são outros ilustradores das obras de Matilde Rosa Araújo."
Nota:
O percurso como escritora de literatura infantil iniciou-se em 1957, com "O Livro da Tila", construído nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde dava aulas e se tornou amiga de José Régio.
Os poemas foram musicados por Lopes Graça.
Entre os livros de contos e poesia para adultos destacam-se:
"Estrada Sem Nome",
"Praia Nova",
"O Chão e as Estrelas"
e
"Voz Nua
sexta-feira, 18 de junho de 2010
In Memoriam: José Saramago
"Um texto recente, publicado em O Caderno (Caminho/Fundação José Saramago, 2009, pg.33):
BIOGRAFIAS
Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel. Esta convicção de que tudo quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo parecendo desprovido de significado e importância, é, e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica, levou-me a sugerir um dia, com mais seriedade do que à primeira vista possa parecer, que todos os seres humanos deveriam deixar relatadas por escrito as suas vidas, e que esses milhares de milhões de volumes, quando começassem a não caber na Terra, seriam levados para a Lua. Isto significaria que a grande, a enorme, a gigantesca, a desmesurada, a imensa biblioteca do existir humano teria de ser dividida, primeiro, em duas partes, e logo, com o decorrer do tempo, em três, em quatro, ou mesmo em nove, na suposição de que nos oito restantes planetas do sistema solar, houvesse condições de ambiente tão benévolas que respeitassem a fragilidade do papel. Imagino que os relatos daquelas muitas vidas que, por serem simples e modestas, coubessem em apenas meia dúzia de folhas, ou ainda menos, seriam despachados para Plutão, o mais distante dos filhos do Sol, aonde de certeza raramente quereriam viajar os investigadores.
Decerto se levantariam problemas e dúvidas na hora de estabelecer e definir os critérios de composição das ditas “biobliotecas”. Seria indiscutível, por exemplo, que obras como os diários de Amiel, de Kafka ou de Virginia Woolf, a biografia de Samuel Johnson, a autobiografia de Cellini, as memórias de Casanova ou as confissões de Rousseau, a par de tantas outras de importância humana e literária semelhante, deveriam permanecer no planeta onde haviam sido escritas para que fossem testemunho da passagem por este mundo de homens e mulheres que, pelas boas ou más razões do que tinham vivido, deixaram um sinal, uma presença, uma influência que, tendo perdurado até hoje, continuarão a deixar marcadas as gerações vindouras. Os problemas surgiriam quando sobre a escolha do que deveria ficar ou enviar ao espaço exterior começassem a reflectir-se as inevitáveis valorações subjectivas, os preconceitos, os medos, os rancores antigos ou recentes, os perdões impossíveis, as justificações tardias, tudo o que na vida é assombração, desespero e agonia, enfim, a natureza humana. Creio que, afinal, o melhor será deixar as coisas como estão. Como a maior parte da melhores ideias, também esta minha é impraticável. Paciência."
Notícia no Público, Diário de Notícias, i, Jornal de Notícias, Sol, El País, El Mundo e New York Times.
Retirado daqui
Nota:
Obrigada, Idalino Moura.
In Memoriam: José Saramago
"Nos tempos que correm, de fusões Sócrates – Coelho, de Berlim - Paris, é preciso e urgente, sabermo-nos levantar do chão e talvez mais…"
Idalino Moura
(Subscrevo e assino por baixo.)
JOSÉ SARAMAGO: LEVANTADO DO CHÃO
Duarte Faria
Colóquio-Letras, nº 61, Maio de 1981
pp. 79-80
Romance bem delimitado no tempo e no espaço: entre 1910 e 1974, entre duas revoluções, no Alentejo. Uma família estabelece a ligação, do avô à bisneta atravessando a experiência histórica de uma decepção a uma esperança. Não se trata de um documentário nem de uma crónica entremeada de laivos ficcionais mas de uma obra romanesca em que a criatividade embebe o acontecimento e a ideia numa bem realizada ambiência estética.
Ao longo da narrativa predomina a figura do ser humano vergado para a terra, condicionado por um Poder obscuro que lhe dita o horário, a alimentação, a casa, que, o leva de terra em terra ou de cadeia em cadeia. Poder emanado do latifúndio ou concentrando-se objectivamente no latifúndio, este ganha, de qualquer modo, uma dimensão fantasmática de ancestral recalcamento, próximo e longínquo, objecto de desejo e rancor, imagem da enormidade e agente da fome. O latifúndio assume forma de Poder - «O latifúndio ordena a capatazes» - ou forma de espaço contendo ambiguamente toda a espécie de vida e morte - «O latifúndio é um mar interior. Tem os seus cardumes de peixe miúdo e comestível [...] e também grandes anéis serpentinos de estrangulação» De tal maneira que quando, um dia, o homem levanta o corpo e a condição, o latifúndio lá continua a insinuar-se ao desejo de possessão numa imediata distribuição de Poder. Este o drama vivido colectivamente num livro que é, antes de tudo, uma obra muito bem conseguida de literatura.
Em fragmentos que se vão sucedendo à maneira de contos interligados, perpassa, frente ao constante pano de fundo do latifúndio, um núcleo idêntico de elementos com carácter bipolar: família e terra. Entre o homem e a matéria, matéria/ solo, opera-se uma união que a própria História explica como condição de mútua significação. A terra dura da superfície, sem a dimensão telúrica porque está apenas em causa a sua crosta onde se inscreve o dia-a-dia do homem, também sem a dimensão lírica ou bucólica porque essa é objecto de suspeita de alienação face à violência dos dados vividos. Como se vê estamos longe, apesar de tudo, de A Planície Heróica de Manuel Ribeiro. A crosta da terra pode transformar-se, é certo, mas por um outro género de agressividade: a chuva persistente que encharca e toma a terra um obstáculo às caminhadas.
A grande realidade que envolve, e quase diria também encharca, a vida do ser humano é o trabalho; o diário confronto com o solo alheio. A alternativa é uma outra realidade, de ordem política, a repressão policial, interrompendo a primeira para me1hor mostrar a Força superior e vigilante, reforçando uma consequência comum, a subjugação. Ao núcleo central família/terra sobrepõe-se, assim, o binómio trabalho/repressão ou campo/cadeia, dramatizando-o mais violentamente. Por isto mesmo, a escrita deste romance desenrola-se, em geral, de forma tensa, numa linguagem sólida, numa situação em transe, acontecendo, por vezes, que a tonalidade de acto crispado se quebra, derramando-se, então, a reflexão especulativa, amarga e patética. Neste caso, apesar da hábil utilização de processos notada predominantemente, o controlo de escrita romanesca esvai-se, sobrepondo-se a premência ideológica ao rigor estético e funcionando a aludida expressão «Abril, falas mil» não apenas como libertação da fala mas também como exibição da fala.
Se só por si esta história não segue uma ordem linear e rígida no encadeamento dos acontecimentos, mais evidente isso se torna com a recorrência de evocações remotas que impõem ao presente quotidiano um prolongamento indefinido até ao feudalismo medieval, quer por nomes senhoriais valendo por si próprios em lugar da presença física, quer por costumes ou episódios que, ao intrometer-se na realidade presente, denunciam mais vivamente a condição ancestral do trabalhador submisso. Outra incidência no binómio que funciona como constante da história, trabalho/repressão, é a introdução de breves momentos festivos, a boda ou o nascimento de um filho. Esta incidência não tem. O carácter de aprofundamento no tempo mas, pelo contrário, de realce da excessiva efemeridade dos intervalos, tanto mais que, mesmo aí, o horizonte do trabalho acena sempre à maneira de espectro do dia seguinte. Este complexo de constantes e variantes faz-se, aliás, segundo o paradigma das próprias searas: «A história das searas repete-se com notável constância mas tem variantes.» De acordo com isso mesmo, a variação do ritmo, que alterna, por vezes, a tensão e o sobressalto com a distensão mais lenta e mais débil da explanação de ideias.
Este romance de José Saramago consegue combinar a visão de uma realidade à superfície, na sua envolvência, na sua materialidade, na sua opacidade, com uma ductilidade de escrita que produz nessa mesma realidade ressonâncias mais vastas. Daí que a delimitação cronológica e os limites aparentemente estreitos da problemática se dilatem numa proporção e numa densidade que são a de uma condição humana à procura da plena identidade dentro da dignidade do próprio trabalho."
Nota:
Muitos thankiús, Idalino Moura
sexta-feira, 14 de maio de 2010
In Memoriam e Em Choque
Soube há pouco, pelo Blackhill, que se calou, para sempre, a voz de alguém que aprendi a respeitar e a admirar por tudo o que representou neste país do chico-espertismo.
Esta partida dói-me tanto, como a de outro que me fosse próximo.
Vou ter saudades do José Luís Saldanha Sanches, Doutor em Direito, professor, jurisconsulto, cronista... pela sua irreverência e combatividade.
O maldito cancro levou-o.
terça-feira, 16 de março de 2010
Uma irmã...
Fotografia de Em@
©
"Obrigada, Paulo Ambrósio, por estas palavras de quem (pelo que percebo) conhecia bem o Luís, obrigada também pelo que foi escrito no livro de condolências.
Gostaria que ficasse bem claro que "a divulgação da notícia à comunicação social" foi feita por "fonte anónima" (palavras da jornalista) alheia à família.
O suicídio foi a decisão do Luís, e deve ser respeitada. O sofrimento e a angustia que viveu nos (muitos) dias que antecederam a sua morte é que podiam ter sido evitados. Faço minhas as palavras do meu pai "...vocês têm que fazer qualquer coisa!"
domingo, 14 de março de 2010
Jean Ferrat - In Memoriam

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sábado, 13 de março de 2010
In Menoriam - José Costa Martins
E O Peso De Um Boato...
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sábado, 6 de fevereiro de 2010
Ainda a propósito de Rosa, a poeta (In Memoriam)
Os caminhos verdes
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
In Memoriam - Rosa Lobato Faria
"A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, morreu hoje, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado. Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão. Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi). Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos.
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Autobiografia
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.
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Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom. Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
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E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).
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Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
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Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.
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Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
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Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves. Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
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Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
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Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
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Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
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Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.
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Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
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Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
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Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75anos de vida, convenhamos, não é excessivo. Encontramo-nos no meu próximo romance."
Daqui
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Da Cultura - Rosa Lobato Faria (In memoriam)
Até sempre!
"Actriz, escritora e compositora
Rosa Lobato Faria morreu aos 77 anos
A actriz, escritora e compositora Rosa Lobato Faria de 77 anos morreu hoje depois de ter sido internada há uma semana com uma anemia grave num hospital privado de Lisboa. O seu editor na ASA e agora na PortoEditora, Manuel Alberto Valente, recorda-a como "uma pessoa extraordinária" e revela que Lobato Faria desejava publicar um novo romance este ano. Lauro António, realizador, frisa que "ela deixa uma marca forte no mundo do espectáculo e da cultura portuguesa".
Daqui










